A minha primeira experiência de amizade espontânea, aquelas que não são facilitadas pela amizade dos pais ou por laços de sangue, foi aos cinco anos, quando entrei para a escola primária. Não me lembro bem de como começou, mas lembro-me da sensação aconchegante que a presença da Madalena provocava. A Madalena era um colo de mãe em forma de menina de seis anos. Generosa, sorridente, tranquilizadora, aquela menina representou os únicos momentos de conforto e alegria que (...)
Cresci sem outras crianças por perto, mas rodeada de campo, flores, uma horta grande e até um pequeno pomar. Passava muito tempo a observar as flores e as suas alterações ao longo do dia, das semanas e dos meses. Observava, intrigada, as que se abriam de dia e se fechavam durante a noite. Gostava de ver os botões a dar origem a flores de todas as cores. Adorava o cheiro das cravinas e das rosas, mas encontrava no perfume dos junquilhos amarelos e brancos uma magia transcendente. À (...)
Quando eu tinha 13 ou 14 anos, ainda não era verdadeiramente uma adolescente. Cresci mais tarde — talvez só a partir dos 15. Durante toda a minha infância, até essa idade, tive poucos estímulos exteriores. Tínhamos apenas dois canais de televisão, com uma programação limitada e pouco variada. Não havia internet, nem redes sociais, nem dispositivos móveis. Não frequentava qualquer atividade extracurricular — tirando uma breve passagem pelas danças de salão, aos 13 — e (...)
Tinha 13 anos - e uma disposição muito alegre, como se pode ver na foto- quando decidi, com uma amiga, experimentar danças de salão. Olhando para trás, não sei bem se gostava ou não das aulas. Acho que, mais do que entusiasmo, era uma forma de ocupar o tempo para além da escola. Talvez já naquela altura tivesse a tendência de me colocar em situações desconfortáveis só para testar os meus próprios limites emocionais. A verdade é que não me identificava com os outros (...)
Quando era pequena, antes de entrar para a escola primária, tinha uma “ama”, que era, na verdade, uma vizinha que não trabalhava e tomava conta da sua neta, que tinha a mesma idade que eu. Quando me lembrava dela, costumava pensar que não era muito simpática, porque ajudava a neta a ganhar-me em jogos de cartas e, em conversa com outras vizinhas, comentava — mesmo à minha frente — que eu era uma “Maria Rapaz”: muito irrequieta e sempre toda suja de andar a trepar árvores (...)