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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Seg | 07.07.25

Os primeiros desafios da pré-adolescência

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A minha filha mais velha, a Lara, tem agora 11 anos. Boa parte dos seus amigos e colegas da escola já estão, provavelmente, a entrar na adolescência. Começam a ter comportamentos diferentes, a ficar menos crianças, e passam a interessar-se por coisas mais próprias dessa nova fase.

Curiosamente, lembro-me bem de passar por esse momento, embora de forma um pouco diferente. Entrei na escola muito cedo, com 5 anos, mas tive um desenvolvimento perfeitamente normal — apenas um pouco mais tardio dentro da normalidade. Recordo-me de só começar a sentir que estava realmente a entrar na adolescência por volta dos 15, quase 16 anos. Até lá, mantinha ainda muitos interesses considerados “de criança”. Lembro-me de me esconder para brincar com bonecas, numa altura em que as minhas amigas já queriam namorar e se interessavam por coisas diferentes. Eu não tinha qualquer vontade de me envolver nessas conversas, e até me preocupava com isso. Cheguei a achar que havia algo de errado comigo.

Não tinha interesse nenhum nesses assuntos. Gostava de brincar (embora também gostasse de ler, escrever e desenhar), e sentia-me deslocada. Era como um ET no meio das outras raparigas. E agora vejo essa mesma diferença na Lara.

Ela tem dito, ultimamente, que está a ficar sem pessoas com quem brincar. Adora brincar — é mesmo aquilo de que mais gosta. Não é necessariamente com bonecas, mas sim criar coisas, inventar brincadeiras, montar tendas e abrigos, explorar com os irmãos ou com os amigos. Nota-se que é feliz a brincar. E curiosamente, sente-se mais à vontade com rapazes, especialmente os mais novos, porque — segundo ela — são mais divertidos e ainda gostam das mesmas coisas.

Eu entendo. Era igual. Quando era pequena, não me identificava muito com as raparigas. Eram “muito senhoras”, e eu queria era correr, sujar-me, subir às árvores. As minhas vizinhas diziam que eu era uma Maria-Rapaz. E, de certa forma, já naquela altura se esperava que as meninas tivessem um comportamento mais “arrumadinho”. Brincar com bonecas, fazer comidinhas, ajudar nas tarefas — tudo isso era aceitável. Mas eu não gostava. Ainda hoje não gosto muito de “fazer uma comidinha”. E brincar às donas de casa ou às princesas sempre me pareceu aborrecido.

Com a Lara, estamos agora numa fase em que ela começa a procurar o seu lugar no mundo. E começa a sentir também o desconforto dos outros em relação a isso. Tem, por exemplo, um amigo de infância — daqueles que estão com ela desde os dois anos — com quem sempre brincou. Agora, já há quem goze e diga que são namorados. Ela fica muito chateada, e até tem medo de que ele deixe de querer brincar com ela por causa disso. E com outros amigos, nota que já não têm o mesmo interesse pelas brincadeiras. Preferem conversar, jogar futebol, ou simplesmente não fazer “coisas de criança”.

O que eu tento dizer-lhe — e repito muitas vezes — é que não se deve deixar influenciar pelos outros. Que não deve fingir que não gosta do que gosta, nem esconder quem é, só para agradar ou para encaixar na "normalidade". Digo-lhe que vai encontrar pessoas com interesses semelhantes, que há adultos de todas as idades que continuam a brincar, a inventar, a rir-se com gosto. Falei-lhe dos humoristas, por exemplo — mas não só. Há tanta gente que mantém essa leveza pela vida fora.

Digo-lhe também que não deve gozar com ninguém por gostar de coisas diferentes dela. Porque ela própria sabe como isso magoa. Tentar ultrapassar essas situações com coragem é importante, mas também é importante não reproduzi-las. É preciso coragem para ser quem somos, mesmo quando isso nos afasta dos outros. E é preciso empatia para aceitar que nem todos são como nós.

Estamos nesta fase. Tento explicar-lhe que se ela gosta de brincar, deve brincar. Que não está aqui para corresponder às expectativas de ninguém. Que ser gozada por ser diferente não diz nada sobre ela, mas sim sobre os outros. Que o erro está em quem goza — não em quem simplesmente gosta do que gosta.

O “normal” não existe. O normal é sermos boas pessoas. O normal é respeitarmos os outros. O normal é sermos tolerantes com a diferença. Gostar de brincar, de conversar, de correr, de cozinhar — tudo isso são variações saudáveis da personalidade de cada um. O que não é normal é magoar gratuitamente quem é diferente de nós.

E é isso que tento passar-lhe, com calma. Que ela precisa de encontrar as suas próprias ferramentas para ser quem é no mundo — mesmo quando não se encaixa. E que eu estarei sempre aqui para a encorajar a não se encaixar em nada que não faça sentido para ela. Em nenhum padrão, nenhum comportamento, nenhuma expectativa alheia.

Lembro-me de passar por isso. De desejar, durante muito tempo, ser mais parecida com os outros. E de, mais tarde, aprender a gostar de ser como sou. Hoje, valorizo muito as minhas diferenças. Sempre ouvi que tinha interesses “estranhos”, e provavelmente ainda tenho. Mas foram essas diferenças que me fizeram ser quem sou.

O que importa, no fim de tudo, é sermos pessoas boas. E se há algo que devemos mudar em nós, são apenas os defeitos que prejudicam os outros. Tudo o resto — aquilo que nos torna únicos — deve ser guardado, cultivado e vivido com orgulho.

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