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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Seg | 11.08.25

O meu (sofrível) percurso escolar

 

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A primeira vez que entrei numa escola tinha 5 anos. Ia para a primeira classe. Estava um pouco assustada, mas não propriamente aterrada. Lembro-me de ver outros meninos a chorar sem entender porquê. Eu sentia-me apenas apreensiva com o desconhecido.

Se soubesse, de verdade, o que aquela escola representaria para mim, talvez o medo tivesse sido maior.

Com algumas exceções, as minhas memórias da escola primária não são boas. São bastante sombrias, marcadas por sentimentos de receio e inquietação. Não me lembro de sentir entusiasmo por ir para a escola.

Era uma criança magra, pequenina, desengraçada e assustadiça (acho eu). De vez em quando, numa visita de estudo entre os meus 6 e 8 anos, alguém comentava que eu tinha uns olhos bonitos. Lembro-me de ficar espantada — achava sempre que deviam estar a falar de outra pessoa. Mesmo quando me olhavam diretamente, eu não conseguia acreditar que pudessem estar a dizer aquilo de mim. Sempre me vi como invisível, e invisível era, aliás, o meu ideal.

A minha turma era composta por miúdos com muitos problemas. Havia bastante violência entre as crianças — e também da parte de alguns professores, que oscilavam entre a agressividade e o completo desinteresse. Claro que, a certa altura, fiz uma ou outra amiga, e nem tudo foi mau. Mas, no geral, não tenho boas recordações desse tempo.

No segundo ciclo, as coisas não melhoraram muito. Também não pioraram. Acho que não tive sorte com as turmas. Nunca fiz grandes amigos. Sentia-me uma estranha entre estranhos. Sabem aquela música dos Doors, "People are Strange"? Era a banda sonora perfeita para a minha vida escolar.

Tudo começou a mudar no 10.º ano. Mudei-me para uma escola maior, numa pequena cidade próxima da vila onde vivia. Fui para Almeirim — e, com 15 anos, já com interesses novos, a escola transformou-se numa espécie de catálogo de pessoas potencialmente interessantes (segundo os critérios dos meus 15 anos, claro).

Pela primeira vez, comecei a sentir entusiasmo em ir para a escola… mesmo que fosse só para “ver as vistas”.

Ir à escola passou a significar vários intervalos de 10 minutos em que podia observar, ao vivo, o meu novo centro de interesse: um rapaz de quem começava a gostar. E pronto — os melhores momentos dos meus 12 anos de escola resumem-se, basicamente, aos intervalos em que o via. Talvez tenha havido outras coisas boas — aulas interessantes, em que aprendi coisas que me marcaram — mas, se houve, não me ficaram na memória.

Guardo ressentimentos? Nenhum. Hoje, não. De certa forma, tudo o que vivi ajudou-me a valorizar ainda mais a vida que tenho, que foi sempre melhorando com o tempo. Sabem aquela ideia de que a infância é a fase mais feliz da vida? Para mim, foi o contrário. Quanto mais adulta, mais feliz me sinto.

E o que mais me alegra hoje é ver o entusiasmo com que os meus filhos vão para a escola. Nunca me lembro de ter sentido o mesmo. E isso — vê-los felizes onde eu não fui — deixa-me profundamente tranquila. E grata.