O cão perdido
No feriado, resolvi brincar à mãe de família típica de um bairro alegre e fui andar de bicicleta com os meus filhos e um vizinho pequeno, muito amigo dos miúdos. Eles foram de bicicleta; eu optei por caminhar.
O bairro é muito sossegado e tem bastante espaço, sendo comum ver famílias a passear, pessoas a correr e muitas pessoas a passear os cães.
A determinada altura, parámos perto do parque infantil, onde estavam várias crianças, dois homens a conversar e um cão grande, que me pareceu um cão de fila. O cão aproximou-se de nós, eu fiz-lhe umas festas, mas ele pareceu especialmente interessado no nosso vizinho pequeno, que começou a ficar com medo. O problema é que, quanto mais ele fugia, mais o cão o perseguia. As miúdas, o Eduardo e eu tentámos manter o cão afastado, mas ele começou a ladrar para o Eduardo, que talvez o tivesse tentado impedir de ir atrás do nosso vizinho.
Aquela atitude do cão assustou-nos um pouco e eu, alarmada e já um pouco zangada, perguntei aos homens que ali estavam se o cão era deles. Não era.
O Eduardo, assustado, foi para casa. E o cão foi atrás dele, entrando pelo nosso quintal como se estivesse apenas a passear. Lá o convenci a sair e, entretanto, o cão continuou ali connosco.
A minha vizinha, que tem uma cadela e percebe de cães, tentou atrair a sua atenção e mantê-lo por perto, para que não se aproximasse de outros cães, o que acabou por acontecer, inevitavelmente. O cão viu um labrador ao longe e foi a correr até ele. Gerou-se o pânico. Era gente a gritar, cães a ladrar, até que um homem começou a ralhar muito com o cão e ele finalmente se afastou.
Entretanto, foi criando umas confusões aqui e ali com outros cães, e a minha vizinha e a Lara acabaram por ouvir os desagrados de donos que assumiram que o cão pertencia à pessoa que, espacialmente, estivesse mais próxima dele.
Tirei uma foto ao cão e perguntei no grupo de Facebook dos vizinhos se era de alguém. Não era. Devia estar perdido por ali.
Fiquei com pena do cão. Pareceu-me inofensivo, mas muito mal recebido, o que é compreensível. Impunha respeito pelo tamanho, ainda mais quando começava a ladrar.
Entretanto, movidas pelo medo, as pessoas já andavam a hostilizar-se, julgando o adulto ou a criança mais próxima como dono do cão. Eu fiz o mesmo, e isso deu-me vontade de rir. Primeiro senti-me irritada por os homens não fazerem nada em relação ao cão que estava a incomodar as crianças; depois senti-me irritada por uma senhora ralhar com a minha filha e lhe dizer para segurar o cão, julgando que era dela.
Enfim, todos com razão e nenhum com ela.
E o cão ali estava. Obviamente, não o podia trazer para casa e esperar que o dono aparecesse. Não percebo nada de cães, mas julgo que um cão daquele tamanho não se coloca numa casa com um quintal, roupa a secar e três crianças.
Foi a nossa aventura do fim de semana.
Espero que o cão tenha regressado à sua casa. Pareceu-me francamente inofensivo e até amoroso, mas foi julgado pelo seu tamanho e pela sua forma assustadora de comunicar.