Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Qui | 24.07.25

Leitura essencial: Testamentos, de Margaret Atwood

IMG_0787.jpg

Ando a ler Testamentos, de Margaret Atwood. Este livro é a continuação de A História de uma Serva, que li há poucas semanas. Já tinha visto alguns episódios da série baseada no primeiro livro, mas achei-a excessivamente violenta e focada em aspetos que, para mim, não eram os mais interessantes. Os livros, por outro lado, tocam em questões que me interessam profundamente.

Sinto que Testamentos é um livro muito importante — em qualquer época, na verdade, mas especialmente nos dias de hoje. Como alguns bons livros conseguem fazer, este transporta-nos para uma realidade que, felizmente, não precisamos de viver para compreender. Através das emoções que desperta e das reflexões que provoca, o livro funciona quase como um ensaio emocional e moral sobre o que seria viver num sistema político e social radicalmente diferente daquele que consideramos justo.

É importante que possamos intuir, através da arte, o que pode acontecer se não estivermos atentos, se não conhecermos bem a História, se não refletirmos sobre o que está a acontecer à nossa volta. E, acima de tudo, se não assumirmos a nossa responsabilidade enquanto cidadãos — como votantes, como educadores, como participantes ativos numa sociedade democrática.

Digo isto porque, embora vivamos numa parte do mundo relativamente pacífica, vejo hoje coisas a acontecer que nunca pensei possíveis. Ouço pessoas — algumas de quem gosto e respeito — afirmarem que não existe extrema-direita, que não há risco de voltarmos a viver em ditadura, muito menos algo semelhante ao que aconteceu no passado em Portugal ou noutras partes da Europa. Mas a verdade é que, mesmo com acesso à informação como nunca antes, também estamos mais expostos à desinformação. E muitas vezes assistimos, em silêncio, a acontecimentos realmente graves.

O que podemos fazer? Acredito que podemos (e devemos) estudar História. Observar o mundo com sentido crítico. Educar os nossos filhos para pensarem de forma independente. Analisar os vários lados de cada questão. E, sobretudo, votar com responsabilidade — sem ceder a populismos, a discursos fáceis ou a culpas atiradas a quem não é verdadeiramente responsável.

Temos um dever — para com os nossos filhos, os nossos netos e todas as gerações futuras. E parte desse dever é recordar que os direitos e liberdades que temos hoje foram conquistados com luta, sacrifício e coragem. Não fui eu quem lutou, mas sou o resultado da luta de quem veio antes de mim. E nunca me esqueço disso.

Testamentos ajuda-nos a refletir sobre tudo isto. Mostra-nos como pessoas aparentemente comuns podem ser levadas a fazer coisas terríveis — não por maldade inicial, mas por sobrevivência, por medo, por adaptação a um sistema opressor. E esse é o ponto mais assustador: perceber que todos nós, sem vigilância ética e histórica, poderíamos ser capazes do pior.

Estou a gostar muito desta leitura. Diria mesmo que deveria ser leitura obrigatória — não só para quem já se interessa por estes temas, mas especialmente para quem acredita que “está tudo bem” ou que “isto tem que levar uma volta” sem pensar no que isso realmente significa. Sim, talvez o mundo precise de mudanças. Mas que essas mudanças venham com mais humanidade, mais democracia e mais respeito pelos direitos fundamentais que tantos antes de nós conquistaram.

Se puderem, leiam primeiro A História de uma Serva e depois Testamentos. Um pouco assustadores? Sim. Mas infelizmente, não assim tão ficcionais.