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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

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Seg | 24.11.25

Frankenstein

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Há muitos anos li Frankenstein, de Mary Shelley, e guardo até hoje a memória de um livro simples, pouco pretensioso, mas profundamente humano. Apesar do seu imaginário gótico, nunca o considerei propriamente um romance de terror. É uma obra sensível, cheia de perguntas sobre o que significa existir, pertencer e ser visto. Por isso, quando soube que Guillermo del Toro, um realizador que admiro, especialmente pelo  Labirinto de Fauno, estaria por detrás de uma nova adaptação, quis logo ver.

E posso dizer sem reservas: gostei muito, muito deste filme.  É uma obra de uma beleza rara.

A estética

Antes de mais, é impossível não falar da estética. Frankenstein é, visualmente, um filme absolutamente irrepreensível. As imagens são de uma beleza tão grande que, mesmo que a narrativa não me dissesse nada, eu seria capaz de assistir às duas horas e meia de filme só para contemplar a fotografia, os cenários, a direção de arte, cada detalhe da produção.

Del Toro já nos habituou a esta combinação de fantasia sombria e sensibilidade pictórica, mas aqui ele leva isso a um nível ainda mais apurado. E a escolha do elenco acompanha essa coerência estética: os atores não só brilham pela interpretação, mas parecem ter sido escolhidos pela imagem perfeita para este universo.

A história: um ciclo de abandono

O que mais me tocou, porém, foi a forma como esta história foi contada. No filme, vejo sobretudo uma narrativa sobre abandono, quase um abandono em cadeia.

Temos um cientista talentoso, mas egoísta e obsessivo, que cria uma criatura e depois a abandona, literalmente deixa de ter interesse nela. Esse abandono é agravado por uma carga emocional brutal: faz com que ela se sinta monstruosa, má e perversa, quando, na verdade, é apenas pura.

Mas este comportamento não surge do nada. O próprio cientista é filho de um pai frio e ausente. E podemos imaginar que esse pai, por sua vez, também tenha sido criado de forma semelhante. Cria-se um ciclo de distância emocional, de pais que não sabem ver ou amar os filhos, e filhos que carregam para a vida adulta essas feridas, acabando por repeti-las.

A criatura: inocência que resiste

No centro deste turbilhão está a criatura que, para mim, é quase como uma criança. Um ser inocente que enfrenta solidão, rejeição e medo, não por aquilo que é, mas pela aparência com que nasceu.

E há algo de profundamente comovente na forma como ele permanece fiel à sua natureza, mesmo diante da violência, da raiva e do desespero. Ele só quer aquilo que todos nós queremos: ser visto, ser aceite, ter alguém com quem partilhar a existência.

A certa altura existem pessoas que cruzam o seu caminho, o veem como ele realmente é retribuem a sua humanidade e gentileza. Mas, na maioria das vezes, as pessoas atacam-no e ferem-no (sobretudo emocionalmente) partindo do principio de que ele é mau, preverso e perigoso sem qualquer base para além da sua estranha aparência. Faz-vos lembrar alguma coisa?

Sempre, a humanidade

Frankenstein é, acima de tudo, um filme muito humano. Faz-nos pensar na forma como tratamos quem é diferente, na maneira como nos relacionamos com os nossos filhos, com os nossos pais e com todos aqueles que têm importância na nossa vida. É um filme que pede reflexão, não medo.

Não o classificaria como terror. Para mim, é um drama belíssimo, às vezes violento no aspecto visual (ossos partidos, feridas), mas nunca gratuito. Crianças sensíveis podem impressionar-se, mas penso que uma criança de dez anos pode ver perfeitamente, desde que acompanhada. 

É uma obra de arte sensível, bonita, intensa e profundamente humana, que se adequa a todos. É, sobretudo, uma obra necessária em qualquer tempo.