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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Qua | 09.04.25

Crescer sem Internet: uma infância rica em tédio e imaginação

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Quando eu tinha 13 ou 14 anos, ainda não era verdadeiramente uma adolescente. Cresci mais tarde — talvez só a partir dos 15.

Durante toda a minha infância, até essa idade, tive poucos estímulos exteriores. Tínhamos apenas dois canais de televisão, com uma programação limitada e pouco variada. Não havia internet, nem redes sociais, nem dispositivos móveis. Não frequentava qualquer atividade extracurricular — tirando uma breve passagem pelas danças de salão, aos 13 — e quase não tinha com quem brincar. Era filha única, sem irmãos e sem vizinhos da minha idade, apenas uma ou outra criança que aparecia esporadicamente em casa da avó vizinha.

Nos anos 80, os pais não costumavam brincar com os filhos — e muitos nem sequer conversavam muito com eles. Por isso, a minha infância foi, acima de tudo, solitária. Mas, curiosamente, isso deu espaço a algo poderoso: a minha imaginação.

Passei anos a inventar coisas, a desenhar, a escrever, a criar histórias em banda desenhada, roupas para as bonecas e até casas feitas de esferovite. As bonecas tornavam-se figurantes das novelas e dramas que criava na minha cabeça. Lembro-me de brincar aos advogados, construindo argumentos a favor e contra uma mesma ideia, em longos diálogos interiores. O tédio era tanto que, por vezes, subia ao sótão para olhar, da janela mais alta da casa, o eucaliptal que se estendia para lá dos quintais. E escrevia poemas inspirada por aquela paisagem. Acho que naquela altura tinha mais sensibilidade do que agora.

Observava as plantas da minha avó com atenção. Fascinava-me o modo como algumas flores se abriam com o sol e se fechavam ao anoitecer. Dava nomes às galinhas e aos coelhos que ela criava — lembro-me até de um grupo de coelhos a quem coloquei o nome das Tartarugas Ninja.

O meu mundo social era feito de pequenas interações com as vizinhas do lado, senhoras mais velhas que me pediam ajuda para ler cartas, porque não sabiam ler. Recordo também o gesto de cortar as unhas a uma tia idosa que não se conseguia dobrar para o fazer. Nessas alturas, aproveitava para conversar e perguntar como era a infância delas. Adorava aquelas histórias, sem imaginar que um dia a minha própria infância pareceria tão distante da dos meus filhos.

Sem distrações tecnológicas, lia tudo o que encontrava — livros, enciclopédias, rótulos, revistas — e isso acabou por me dar uma cultura geral que, confesso, me tornava mais culta na altura do que hoje em dia. Leio bem menos do que deveria.

Hoje, os miúdos têm acesso a mais informação do que nunca... e, paradoxalmente, parecem saber menos sobre o mundo à sua volta. Por isso, acredito que os pais precisam de ser curadores de conteúdo — é urgente filtrar, orientar e, sim, limitar o acesso à informação que chega até aos nossos filhos.

A Internet é uma ferramenta poderosa — e perigosamente sedutora para crianças e adolescentes. Na minha opinião, eles precisam de desporto, livros, música, natureza… e sobretudo, de brincar verdadeiramente com outras crianças. Não precisam de ser entretidos a toda a hora.

Sim, é natural recorrer ao ecrã numa longa viagem de avião ou quando os pais não têm como dar atenção. Mas isso não pode ser o padrão — não pode ser a norma de todos os dias, de todos os minutos livres.

Tenho três filhos, todos a caminhar para a adolescência, e confesso: sinto que ainda não sei nada sobre educação. Vivo num constante equilíbrio entre tentativas e erros, leituras, conversas com outros pais e muita intuição. Mas uma coisa é certa: vejo na Internet, nas redes sociais e nos smartphones objetos que não são, de todo, brinquedos para crianças.

Como foi a vossa infância? Também sentem que o excesso de estímulos de hoje está a roubar espaço à criatividade das crianças?

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