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Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Vinil e Purpurina

Parafernálias sobre a minha vida e a minha mente.

Qui | 31.07.25

Trilho em Família: Rocha da Relva com Crianças (Sim ou Não?)

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Num dos últimos fins de semana, decidimos fazer um trilho em família. A Lara já andava a pedir há algum tempo, e com o bom tempo a convidar, parecia a oportunidade perfeita. Vivendo nos Açores, onde não faltam trilhos lindíssimos, estas caminhadas são sempre uma ótima forma de aproveitar a natureza e o tempo em família.

Já tínhamos feito outros trilhos com os miúdos, como nas Furnas e à volta de lagoas — trilhos fáceis, sem grande dificuldade. Mas, desde que o Eduardo tinha uns 4 ou 5 anos, deixámos de fazer caminhadas mais longas. Estava na altura de retomar!

O Milton queria ir à Lagoa do Fogo, mas o único trilho que conheço lá não me pareceu apropriado para crianças. A última vez que o fiz, há uns 10 anos, não era nada fácil — muito inclinado, caminhos pouco sinalizados, zonas quase verticais… Apesar de estar classificado como “fácil”, eu lembrava-me bem da dificuldade.

Optámos então por um trilho que já conhecíamos: o da Rocha da Relva. Lembrava-me de o percurso ser exigente, especialmente na subida, mas também de ser lindíssimo e diferente de outros trilhos. A paisagem geológica é fascinante, com escarpas onde se veem várias camadas de solo e pedras perfeitamente redondas junto ao mar. Há também casas e quintas pitorescas e, com sorte, até se encontra um burro — um meio de transporte comum naquela zona de acesso difícil, onde circulam essencialmente motas ou… burros.

A Caminhada

Fomos todos: eu, o Milton e os três miúdos — o Eduardo (6), a Maria (9) e a Lara (11). Houve algumas queixas (da Maria, claro!), mas no geral portaram-se muito bem. Fizemos praticamente todo o trilho, só deixámos de fora uns metros finais que não tinham grande interesse. O último ponto a que chegámos foi uma zona de descanso encantadora, com bancos de madeira debaixo de uma árvore.

A descida fez-se bem, mas o trilho exige atenção. Há zonas estreitas, com cerca de um metro ou metro e meio de largura, junto a precipícios sem qualquer proteção. Embora não me parecesse fisicamente perigoso, psicologicamente deixou-me desconfortável. Se me lembrasse melhor do caminho, talvez não tivesse levado os miúdos.

O percurso está classificado como de dificuldade média, e parece-me justo. Não é perigoso se formos cautelosos, mas não recomendaria para crianças muito pequenas. Apesar disso, os nossos portaram-se lindamente — deram as mãos, prestaram atenção, e intuiram bem onde era necessário maior cuidado.

Dicas úteis (sobretudo com crianças):

  • Levem água (essencial!). Há fontes no fim do trilho, mas não contem com isso.

  • Levem lanchinho, principalmente com crianças.

  • Usem ténis confortáveis — nada de chinelos! O caminho tem pedras soltas, folhas secas e terra solta, o que pode torná-lo escorregadio em algumas partes. Isso pode ser um pouco chato (e preocupante) para quem leva crianças pequenas, que podem derrapar com mais facilidade.

  • Apliquem protetor solar antes de sair e levem chapéu.

  • Roupa leve chega, se o tempo estiver quente.

  • casa de banho no final do trilho e um pequeno bar (aparentemente só funciona com reserva).

  • O trilho é pouco frequentado, o que o torna muito tranquilo.

  • Atenção às motas: passámos por algumas e é preciso sair do caminho para as deixar passar em segurança.

Subida final: a parte mais dura

Na volta, a subida foi exigente mas gerível. Fizemos pequenas pausas — subíamos uns 50 ou 100 metros, depois parávamos 2 ou 3 minutos. Repetimos isso umas 5 vezes e correu surpreendentemente bem. O trilho todo levou cerca de 2 horas e meia a 3 horas, com paragens para lanchar e apreciar a paisagem.

Então… é um trilho para crianças?

Depende. No nosso caso correu bem — o Eduardo tem 6 anos, a Maria 9 e a Lara 11 — mas não é um trilho para qualquer criança nem para qualquer família. Não é perigoso no sentido físico direto, mas obriga a atenção constante. Se forem muito cautelosos (como eu costumo ser), talvez prefiram esperar até os miúdos serem um pouco mais velhos.

A paisagem é única e vale a pena. É diferente dos trilhos interiores, mais florestais, e oferece um contacto muito especial com o lado mais agreste e isolado da ilha. Se forem preparados — e souberem ao que vão — pode ser uma experiência inesquecível.

Se alguém já fez este trilho com crianças pequenas, partilhem a vossa experiência! Será que estou a ser demasiado cautelosa… ou apenas realista?

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Seg | 28.07.25

Ler "História" às crianças antes de dormir

 

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Há um livro que tenho lido ao Eduardo à noite, e que tem sido uma bela surpresa — para ele e para mim. O Eduardo tem agora 6 anos, e este livro faz parte de uma coleção chamada Génio em 60 Segundos. Em particular, estamos a explorar o volume dedicado à História, que traz textos curtos, cheios de curiosidades e completamente acessíveis até para crianças mais pequenas.

O livro aborda temas como as comunidades pré-históricas, os impérios antigos, as grandes civilizações… Tudo com uma linguagem simples, direta e com um toque divertido. É leve o suficiente para uma leitura ao final do dia, mas com conteúdo suficientemente rico para despertar a curiosidade — e muitas perguntas.

Já tinha comprado este livro anteriormente para a Lara, que tem agora 11 anos. Ela leu-o sozinha, embora me lembre de termos lido juntos alguns trechos. A Maria, com 9 anos, também já o leu — é mais autónoma nas leituras e interessa-se muito, embora prefira ler sem companhia.

O Eduardo, por outro lado, é o mais curioso de todos. Faz imensas perguntas. Ler com ele é quase como estar numa aula de perguntas e respostas. Para cada pequeno parágrafo que lemos, surgem logo mais meia dúzia de dúvidas — “Porquê?”, “E como é que eles sabiam?”, “Mas como é que descobriram isso?”, e por aí fora. Por vezes, quase não conseguimos avançar na leitura!

Mas é mesmo muito bom vê-lo interessado. E, confesso, para mim também tem sido uma redescoberta. Já não me lembrava de muitos dos factos históricos que o livro aborda, e é bom ir relembrando — ou mesmo aprendendo coisas novas. Acaba por ser um momento de partilha e de aprendizagem em conjunto.

Uma leitura leve, educativa e divertida

Cada leitura noturna tem duas páginas, o que corresponde a um tema. É um formato ótimo: curto, direto, mas cheio de informação interessante. Além disso, é um bom equilíbrio entre a aprendizagem e o momento de tranquilidade que é (ou deve ser!) a hora de deitar.

Recomendo muito este livro — ou melhor, esta coleção. Existem outros volumes além deste sobre História, todos dentro do mesmo espírito: despertar a curiosidade das crianças sobre cultura, ciência e o mundo à sua volta, com uma linguagem acessível e ilustrativa.

Se tiverem filhos curiosos, como o Eduardo, ou se procuram uma forma diferente e lúdica de ensinar História em casa, deixo aqui esta sugestão. Na minha opinião, também é um excelente presente de aniversário — útil, educativo e divertido. Fica a dica!

Qui | 24.07.25

Leitura essencial: Testamentos, de Margaret Atwood

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Ando a ler Testamentos, de Margaret Atwood. Este livro é a continuação de A História de uma Serva, que li há poucas semanas. Já tinha visto alguns episódios da série baseada no primeiro livro, mas achei-a excessivamente violenta e focada em aspetos que, para mim, não eram os mais interessantes. Os livros, por outro lado, tocam em questões que me interessam profundamente.

Sinto que Testamentos é um livro muito importante — em qualquer época, na verdade, mas especialmente nos dias de hoje. Como alguns bons livros conseguem fazer, este transporta-nos para uma realidade que, felizmente, não precisamos de viver para compreender. Através das emoções que desperta e das reflexões que provoca, o livro funciona quase como um ensaio emocional e moral sobre o que seria viver num sistema político e social radicalmente diferente daquele que consideramos justo.

É importante que possamos intuir, através da arte, o que pode acontecer se não estivermos atentos, se não conhecermos bem a História, se não refletirmos sobre o que está a acontecer à nossa volta. E, acima de tudo, se não assumirmos a nossa responsabilidade enquanto cidadãos — como votantes, como educadores, como participantes ativos numa sociedade democrática.

Digo isto porque, embora vivamos numa parte do mundo relativamente pacífica, vejo hoje coisas a acontecer que nunca pensei possíveis. Ouço pessoas — algumas de quem gosto e respeito — afirmarem que não existe extrema-direita, que não há risco de voltarmos a viver em ditadura, muito menos algo semelhante ao que aconteceu no passado em Portugal ou noutras partes da Europa. Mas a verdade é que, mesmo com acesso à informação como nunca antes, também estamos mais expostos à desinformação. E muitas vezes assistimos, em silêncio, a acontecimentos realmente graves.

O que podemos fazer? Acredito que podemos (e devemos) estudar História. Observar o mundo com sentido crítico. Educar os nossos filhos para pensarem de forma independente. Analisar os vários lados de cada questão. E, sobretudo, votar com responsabilidade — sem ceder a populismos, a discursos fáceis ou a culpas atiradas a quem não é verdadeiramente responsável.

Temos um dever — para com os nossos filhos, os nossos netos e todas as gerações futuras. E parte desse dever é recordar que os direitos e liberdades que temos hoje foram conquistados com luta, sacrifício e coragem. Não fui eu quem lutou, mas sou o resultado da luta de quem veio antes de mim. E nunca me esqueço disso.

Testamentos ajuda-nos a refletir sobre tudo isto. Mostra-nos como pessoas aparentemente comuns podem ser levadas a fazer coisas terríveis — não por maldade inicial, mas por sobrevivência, por medo, por adaptação a um sistema opressor. E esse é o ponto mais assustador: perceber que todos nós, sem vigilância ética e histórica, poderíamos ser capazes do pior.

Estou a gostar muito desta leitura. Diria mesmo que deveria ser leitura obrigatória — não só para quem já se interessa por estes temas, mas especialmente para quem acredita que “está tudo bem” ou que “isto tem que levar uma volta” sem pensar no que isso realmente significa. Sim, talvez o mundo precise de mudanças. Mas que essas mudanças venham com mais humanidade, mais democracia e mais respeito pelos direitos fundamentais que tantos antes de nós conquistaram.

Se puderem, leiam primeiro A História de uma Serva e depois Testamentos. Um pouco assustadores? Sim. Mas infelizmente, não assim tão ficcionais.

Seg | 21.07.25

A Esplanada Filosófica

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Há um conjunto muito específico de momentos que guardo na memória com um carinho especial. São instantes em que estive completamente presente, saboreando cada segundo, e que despertaram em mim um interesse profundo e uma satisfação quase única — um misto delicioso de curiosidade e descoberta.

Um desses momentos aconteceu numa esplanada qualquer da Universidade de Lisboa, talvez na Faculdade de Letras. Tinha pouco mais de 20 anos e acompanhei a minha prima à universidade, onde ela estudava Filosofia. Estive algum tempo com os colegas dela — estudantes do primeiro ano e alguns mais velhos — e, naturalmente, pusemo-nos à conversa.

Raramente me senti tão integrada, tão à vontade, tão em casa. Tive a sensação de que poderia passar ali horas, talvez dias, a falar com aqueles jovens sobre todo o tipo de inquietações filosóficas.

Aquelas pessoas pareciam ser como eu. Tinham as mesmas questões, as mesmas dúvidas, os mesmos hábitos de reflexão. De repente, as conversas que normalmente me faziam parecer estranha entre os outros jovens, ali eram recebidas com entusiasmo.

Foi aí que percebi: quando somos “estranhos” em conjunto, tudo se torna muito mais agradável.

Talvez por isso — com as devidas diferenças — sempre me senti próxima de minorias, mesmo quando não me identifico diretamente com as suas lutas ou os seus desafios. Sempre me senti uma espécie de minoria — uma estranha, uma outsider.

Lembro-me de duas pessoas que conheci nesse dia. Uma delas, um miúdo de 17 anos de olhos verdes, que creio se tornou escritor. O outro, mais velho, depois de uma breve pesquisa, descobri que é hoje doutorado em Filosofia.

Guardo com muito carinho essa memória, com a certeza de que estive com pessoas verdadeiramente interessantes e especiais — daquelas que não me fazem sentir estranha no meio de pessoas "normais".

Sex | 18.07.25

Coisas que percebemos como aborrecidas mas que, afinal, são boas

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Quando era criança – e até uma jovem de 13 ou 15 anos – era bastante solitária. Sentia-me mesmo muito sozinha. Não aborrecida. Nunca me aborreci verdadeiramente, com a mente caótica e cheia de pensamentos que tenho. Mas não tinha ninguém com quem partilhar esses pensamentos.

Foi por isso que comecei a ganhar o hábito de escrever um diário – não tanto sobre o que me acontecia (porque me parecia pouco memorável, nada de especial ou variado), mas sobre o que me passava pela cabeça. A verdade é que passava muito tempo por casa, a observar os gatos e as plantas, o que – agora percebo – até podia ser muito interessante.

Outro hábito que desenvolvi, e que se tornou quase um vício incontrolável, foi criar grandes diálogos e monólogos na minha cabeça. Sobre todos os temas e mais alguns. Também costumo imaginar pequenas histórias e vídeos mentais, que na verdade não têm tanto enredo, mas mais sentimento, energia e ambiente. Às vezes nasce uma história, sim, mas o foco é provocar sensações.

O objetivo? Provocar algum tipo de sentimento nas pessoas, chamar a atenção para aspetos da vida que me tocam, ou simplesmente influenciar, tentar cativar outras pessoas para a minha visão do mundo.

Hoje percebo que toda essa solidão dos meus primeiros 15 a 20 anos moldou quem sou. Deu origem a uma personalidade reservada, mas também a uma mente inquieta, cheia de ideias tão malucas que me fazem companhia mesmo quando não quero.

É o que temos – e se é o que temos, então mais vale que o saibamos apreciar.

Qui | 17.07.25

A simplicidade dos grandes

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Uma característica que tenho observado nas pessoas que mais admiro — sejam músicos, escritores, médicos, políticos, filósofos, professores ou simplesmente humanistas — é a sua personalidade verdadeiramente simples, curiosa e humilde.

Tenho reparado que, muitas vezes, quem cria as obras mais bonitas (pelo menos do meu ponto de vista) são precisamente aqueles que menos se preocupam com os louros, o reconhecimento, os prémios ou as competições. São pessoas que se interessam genuinamente pela obra em si — como se esta fosse algo independente delas, com vida própria, algo que as encanta tanto quanto encanta a nós.

E isso, para mim, é tão bonito e tão admirável quanto a própria obra.

Nota: A fotografia de Pepe Mujica mostra, ainda que fugazmente, o olhar de um homem bom.

Qua | 16.07.25

A brincadeira livre, esse hábito maravilhoso

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Este mês fiquei sozinha com os meus três filhos durante alguns dias. Eles já estão de férias escolares, mas eu ainda estou a trabalhar. Tirei um dia de férias, mas nos restantes dias fiquei em teletrabalho, com eles em casa.

Os meus filhos têm entre 6 e 11 anos. Já são crescidos o suficiente para se entreterem sozinhos, mas, ao mesmo tempo, a combinação de três crianças cheias de energia e em idades próximas pode ser um verdadeiro caos. Confusão, barulho, brigas, desarrumação, tudo ao mesmo tempo. Trabalhar nesse cenário é, como podem imaginar, um verdadeiro desafio.

Por isso, tomei algumas decisões com antecedência. Planeei os dias e expliquei-lhes o plano antes de começarem. Estabelecemos horários para as refeições, algum tempo dedicado aos trabalhos escolares, e também limites muito claros para o uso de ecrãs. Durante esses dias, a única exceção foi a televisão, permitida duas vezes por dia.

Para mim, é essencial limitar os ecrãs, não só para evitar o uso excessivo, mas porque percebo que, quanto mais tempo passam em frente à televisão, mais aborrecidos e apáticos ficam. Isso não lhes faz bem e torna tudo mais difícil para todos.

Claro que nem tudo correu perfeitamente. Houve discussões entre eles, gritos da minha parte, e momentos em que fiquei muito cansada e frustrada — especialmente quando tinha de intervir nas brigas. Mas, no geral, correu melhor do que esperava.

O mais bonito foi ver como, com o passar dos dias, eles começaram a organizar-se sozinhos. Perceberam que, quando as coisas não funcionavam, havia consequências — e isso motivou-os a procurar soluções, a colaborar e a brincar de forma mais harmoniosa.

O ponto alto destes dias foi a brincadeira livre. Descobriram brinquedos que já tinham há muito tempo e que quase não usavam — e reinventaram-nos. Brincaram com um simples balão em forma de bola de futebol, trazido do aniversário de um amigo. Regressaram aos drones, criaram jogos novos com eles, usaram os walkie-talkies para brincar aos espiões, e deram asas à imaginação de uma forma que há muito não via.

Tanto que, quando chegava a hora da televisão, muitas vezes nem queriam ver nada. Estavam tão envolvidos nas suas criações e nas brincadeiras em conjunto, que a televisão perdeu o interesse. Redescobriram o prazer de brincar, de inventar, de usar a criatividade em grupo — e isso fez toda a diferença.

Houve momentos em que eu consegui trabalhar tranquilamente enquanto eles se entretinham, se organizavam e até resolviam os seus próprios conflitos. Foi uma experiência muito interessante para todos.

Estes dias também serviram como uma boa preparação para o resto das férias. Vão passar alguns dias em campos de férias, mas também vão estar bastante tempo em casa. Saberem brincar de forma livre, criativa e autónoma é uma competência essencial — para eles, e também para mim.

Porque minimalismo, para mim, também é isto: aprender a viver com menos distrações e mais presença, com menos estímulo externo e mais imaginação, com menos controlo e mais autonomia. 

Por aí, como se organizam nas férias com os miúdos em casa?


Seg | 14.07.25

Mini Perguntas Minimalistas

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Vivemos rodeados de coisas. Mas será que precisamos de todas?

Estas 25 perguntas são um convite a pensar com leveza — sobre o que temos, o que guardamos, e o que queremos deixar ir.

Lê devagar. Escolhe uma. E, se quiseres, partilha a tua resposta.

  1. Qual foi a última coisa que compraste e agora te arrependes?
    50 mini pizzas e 50 mini sandes. Sem dúvida um grande arrependimento. 

  2. Se só pudesses manter 5 objetos da tua casa, quais seriam?
    Sem contar com móveis essenciais: bimby, aspirador, máquina de café, um caleidoscópio e os quadros das minhas filhas.

  3. Minimalismo é viver com menos… ou viver com melhor?
    Viver com menos e com melhor.

  4. Quantos copos precisas mesmo para viver?
    12

  5. Há quanto tempo não usas esse “para o caso de precisar”?
    Há bastante, acho.

  6. Que hábito complicas e podias simplificar?
    As compras. Acho sempre que preciso de mais comida e tenho receio que falte.

  7. Consegues passar uma semana sem comprar nada?
    Acho que sim.

  8. Já fizeste uma “limpeza digital”? Como correu?
    Pequena, bem pequena, por isso correu bem.

  9. Qual é o canto mais desnecessário da tua casa?
    Não sei. Acho que usamos cada cantinho e cada canto tem a sua utilidade. 

  10. O que é mais difícil de largar: objetos, pessoas ou ideias?
    Objetos, sem dúvida. E algumas pessoas também não é nada difícil, na verdade.

  11. O que acumulavas em criança e porquê?
    Elefantes com a tromba para o ar. Ainda hoje gosto muito, mas não acumulo. Era um mix de superstição e gosto por objetos orientais.

  12. Minimalismo combina com nostalgia?
    Sim. Acredito que podemos guardar alguns objetos muito significativos.

  13. Qual foi a última vez que sentiste leveza?
    De noite, a conversar com os meus filhos na cama.

  14. Minimalismo rima com quê na tua vida?
    Eficiência, leveza, organização, limpeza e propósito.

  15. Quantas vezes usaste mesmo aquele aparelho de cozinha?
    Poucas, por isso já me livrei dele.

  16. Qual foi a tua compra mais inútil do último ano?
    Balões.

  17. E a mais valiosa (não necessariamente cara)?
    Máquina de fazer queques.

  18. Tens algo escondido numa gaveta “só porque sim”?
    Tenho pois.

  19. Se o teu telemóvel tivesse só 5 apps, quais seriam?
    P. Tracker, MB way, Cartão Continente, Good Reads, Instagram.

  20. O que significa “ter tudo” para ti?
    Ter saúde, família e uma mente criativa.

  21. Quantos objetos tens só por serem bonitos?
    Uma dúzia.

  22. Qual é a tua definição pessoal de “excesso”?
    Ter coisas em demasiada quantidade ou demasiado caras sem nenhum razão prática para isso.

  23. O que simplificaste recentemente e te fez bem?
    O número de coisas que tenho em casa. Sempre que procedo a um destralhe sinto-me lindamente.

  24. Qual seria a tua versão minimalista ideal de um dia perfeito?
    Não ter de trabalhar, não ter acesso à Internet ou a televisão e passar o dia com a minha família, de férias, a conhecer um local novo.

  25. Que espaço da tua vida precisa urgentemente de espaço?
    O meu telemóvel.

E agora é a tua vez: Responde nos comentários ou partilha no teu canto da internet. 

 

Qui | 10.07.25

Educar para ser, e não para ter

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Cá em casa, desde muito cedo, tentamos educar os nossos filhos para não valorizarem excessivamente o material. Não queremos que desprezem os bens ou que achem que não têm importância — claro que têm —, mas acreditamos que não devem ser o centro da vida nem da felicidade.

Não queremos que associem valor ao preço de um brinquedo, à marca de uma roupa ou à quantidade de coisas que têm. Em vez disso, procuramos cultivar neles o apreço por bons momentos, boas experiências, tempo em família e tempo de qualidade. É esse o valor que lhes queremos transmitir.

Sempre que posso, converso com eles sobre isto. Mas não somos perfeitos, e erramos muitas vezes — inclusive neste nosso propósito.

🎄 O Natal do Excesso

Houve um Natal em que caímos na tentação de lhes comprar imensas prendas. Foi um exagero. Os miúdos rasgavam os papéis sem sequer olharem bem para o que estavam a receber, ávidos por mais, numa espécie de frenesim. Foi um erro, e percebemos isso logo. Não repetimos.

Desde então, oferecemos muito poucos brinquedos. As prendas vêm sobretudo no Natal e nos aniversários. Às vezes, o Coelho da Páscoa ou a Fada dos Dentes trazem um livro ou uma pequena surpresa, mas evitamos comprar coisas só porque sim. E como não criámos esse hábito, eles não nos pedem nada quando vamos a uma loja — sabem que, em princípio, não vamos comprar.

👕 Roupas com História

Sempre que possível, usamos roupas emprestadas ou passadas de irmãos para irmãos. Agora que os miúdos estão todos quase do mesmo tamanho, nem sempre conseguimos fazer isso. Mas o Eduardo, por exemplo, usa com gosto roupa dada ou emprestada. A Lara também. Eles percebem que estamos a poupar — não só dinheiro, mas também o planeta. E aquilo que está em bom estado, passamos a outras famílias. É um ciclo simples e natural.

🎁 O Essencial (e o Significativo)

Muitas vezes, os miúdos nem sabem o que pedir no aniversário ou no Natal — e isso, para nós, é um bom sinal. A Maria gosta muito de bonecas, e tem algumas que realmente aprecia. A Lara gosta de skates, patins, bicicletas — coisas que oferecemos nas datas especiais e que consideramos ferramentas para o ar livre, para o movimento, para a liberdade.

Valorizamos brinquedos de qualidade: legos, instrumentos musicais, jogos de tabuleiro, materiais de pintura. O Eduardo, por exemplo, nunca ligou muito a carrinhos ou pistas. Prefere construir coisas e brincar com os irmãos. Na verdade, o que eles mais gostam é de brincar juntos, ao ar livre, com o que encontram — subir árvores, andar de skate, inventar histórias.

🌍 Ser, Partilhar, Estar

Este estilo de vida também nos ajuda a não encher a casa de coisas. Explicamos-lhes que poupamos para poder viajar em família, fazer passeios, jantar fora de vez em quando. São essas experiências que queremos guardar e repetir. Não são melhores porque custam dinheiro, mas porque nos aproximam. Porque nos fazem sentir verdadeiramente felizes.

Na nossa família, o que tem mais valor são as relações humanas, os momentos partilhados, o tempo vivido em conjunto. É isso que tentamos ensinar aos nossos filhos: que o verdadeiro valor está no ser e no estar — e não no ter.

Seg | 07.07.25

Os primeiros desafios da pré-adolescência

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A minha filha mais velha, a Lara, tem agora 11 anos. Boa parte dos seus amigos e colegas da escola já estão, provavelmente, a entrar na adolescência. Começam a ter comportamentos diferentes, a ficar menos crianças, e passam a interessar-se por coisas mais próprias dessa nova fase.

Curiosamente, lembro-me bem de passar por esse momento, embora de forma um pouco diferente. Entrei na escola muito cedo, com 5 anos, mas tive um desenvolvimento perfeitamente normal — apenas um pouco mais tardio dentro da normalidade. Recordo-me de só começar a sentir que estava realmente a entrar na adolescência por volta dos 15, quase 16 anos. Até lá, mantinha ainda muitos interesses considerados “de criança”. Lembro-me de me esconder para brincar com bonecas, numa altura em que as minhas amigas já queriam namorar e se interessavam por coisas diferentes. Eu não tinha qualquer vontade de me envolver nessas conversas, e até me preocupava com isso. Cheguei a achar que havia algo de errado comigo.

Não tinha interesse nenhum nesses assuntos. Gostava de brincar (embora também gostasse de ler, escrever e desenhar), e sentia-me deslocada. Era como um ET no meio das outras raparigas. E agora vejo essa mesma diferença na Lara.

Ela tem dito, ultimamente, que está a ficar sem pessoas com quem brincar. Adora brincar — é mesmo aquilo de que mais gosta. Não é necessariamente com bonecas, mas sim criar coisas, inventar brincadeiras, montar tendas e abrigos, explorar com os irmãos ou com os amigos. Nota-se que é feliz a brincar. E curiosamente, sente-se mais à vontade com rapazes, especialmente os mais novos, porque — segundo ela — são mais divertidos e ainda gostam das mesmas coisas.

Eu entendo. Era igual. Quando era pequena, não me identificava muito com as raparigas. Eram “muito senhoras”, e eu queria era correr, sujar-me, subir às árvores. As minhas vizinhas diziam que eu era uma Maria-Rapaz. E, de certa forma, já naquela altura se esperava que as meninas tivessem um comportamento mais “arrumadinho”. Brincar com bonecas, fazer comidinhas, ajudar nas tarefas — tudo isso era aceitável. Mas eu não gostava. Ainda hoje não gosto muito de “fazer uma comidinha”. E brincar às donas de casa ou às princesas sempre me pareceu aborrecido.

Com a Lara, estamos agora numa fase em que ela começa a procurar o seu lugar no mundo. E começa a sentir também o desconforto dos outros em relação a isso. Tem, por exemplo, um amigo de infância — daqueles que estão com ela desde os dois anos — com quem sempre brincou. Agora, já há quem goze e diga que são namorados. Ela fica muito chateada, e até tem medo de que ele deixe de querer brincar com ela por causa disso. E com outros amigos, nota que já não têm o mesmo interesse pelas brincadeiras. Preferem conversar, jogar futebol, ou simplesmente não fazer “coisas de criança”.

O que eu tento dizer-lhe — e repito muitas vezes — é que não se deve deixar influenciar pelos outros. Que não deve fingir que não gosta do que gosta, nem esconder quem é, só para agradar ou para encaixar na "normalidade". Digo-lhe que vai encontrar pessoas com interesses semelhantes, que há adultos de todas as idades que continuam a brincar, a inventar, a rir-se com gosto. Falei-lhe dos humoristas, por exemplo — mas não só. Há tanta gente que mantém essa leveza pela vida fora.

Digo-lhe também que não deve gozar com ninguém por gostar de coisas diferentes dela. Porque ela própria sabe como isso magoa. Tentar ultrapassar essas situações com coragem é importante, mas também é importante não reproduzi-las. É preciso coragem para ser quem somos, mesmo quando isso nos afasta dos outros. E é preciso empatia para aceitar que nem todos são como nós.

Estamos nesta fase. Tento explicar-lhe que se ela gosta de brincar, deve brincar. Que não está aqui para corresponder às expectativas de ninguém. Que ser gozada por ser diferente não diz nada sobre ela, mas sim sobre os outros. Que o erro está em quem goza — não em quem simplesmente gosta do que gosta.

O “normal” não existe. O normal é sermos boas pessoas. O normal é respeitarmos os outros. O normal é sermos tolerantes com a diferença. Gostar de brincar, de conversar, de correr, de cozinhar — tudo isso são variações saudáveis da personalidade de cada um. O que não é normal é magoar gratuitamente quem é diferente de nós.

E é isso que tento passar-lhe, com calma. Que ela precisa de encontrar as suas próprias ferramentas para ser quem é no mundo — mesmo quando não se encaixa. E que eu estarei sempre aqui para a encorajar a não se encaixar em nada que não faça sentido para ela. Em nenhum padrão, nenhum comportamento, nenhuma expectativa alheia.

Lembro-me de passar por isso. De desejar, durante muito tempo, ser mais parecida com os outros. E de, mais tarde, aprender a gostar de ser como sou. Hoje, valorizo muito as minhas diferenças. Sempre ouvi que tinha interesses “estranhos”, e provavelmente ainda tenho. Mas foram essas diferenças que me fizeram ser quem sou.

O que importa, no fim de tudo, é sermos pessoas boas. E se há algo que devemos mudar em nós, são apenas os defeitos que prejudicam os outros. Tudo o resto — aquilo que nos torna únicos — deve ser guardado, cultivado e vivido com orgulho.

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